O amor em ruínas. Vínculos em um mundo líquido.

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A pós-modernidade é um momento crítico em nossa sociedade. É um movimento de escala global e que parece conduzir nossas vidas no século XXI.

Muito bem descrita pelo sociólogo e pensador polonês Zygmunt Bauman, é a negação de todas as narrativas presentes na antiga sociedade denominada moderna. Em outras palavras, é um mundo onde não temos mais certezas sobre nada, e a metamorfose constante determina o tudo.

Compelidos a acharmos que tudo muda, tudo passa, e que coisas se tornam obsoletas a cada dia que passa, sofremos de um mal que se tornou um dilema para nossas vidas, qual seja: nós perdemos a capacidade de estabelecer vínculos amorosos de longo prazo.

Trocamos de relacionamentos como trocamos de roupa, e o nosso vazio existencial e sensação de abandono no mundo aumentam a cada dia, trazendo-nos um problema, um verdadeiro mal-estar, na sociedade contemporânea: como estabelecer vínculos amorosos duradouros sem abrir mão de nossa liberdade, símbolo da pós-modernidade?

Nessa reflexão gostaria de aquecer o debate e propor soluções, para que possamos mergulhar em nossas mentes e achar novamente o caminho do sentimento que mais nos dá, ao meu ver, sentido a nossa existência: o amor conjugal.

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Sociedade de consumo. Ser humano como objeto.

A sociedade pós-moderna é uma sociedade-cultura de consumo (ideia defendida por vários estudiosos dessa vertente da sociologia), devido a automatização dos processos de produção, transformando-nos em meros consumidores. Somos compelidos a consumir. É uma necessidade de mercado. Cada vez mais o que usamos, vestimos e adquirimos se torna obsoleto da noite para o dia, como um imperativo econômico. Somos apenas peças num tabuleiro de um jogo global.

Não é de se espantar que essa característica se transfira para nosso subconsciente, moldando nossa percepção de mundo e de vida. Consequentemente, os relacionamentos passam pela mesma transformação. As pessoas se transformam em objetos de consumo, e, como tais, descartáveis. Usamos, jogamos fora e procuramos por um “brinquedinho mais legal”.  Torna-se um mundo velho aquele que sonhávamos em ter alguém para o resto da vida.

Os relacionamentos se tornam vazios nessa pós-modernidade. Os laços já são tão frágeis que, ao piscar de olhos, estamos mergulhados no vazio da solidão e, com ela, o medo.

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“Parentesco não é escolha. Os laços são escolhidos. Afinidade já é voluntária.”

Quando nascemos, nossos vínculos por parentesco já existem. Somos determinados e compelidos a ter esse vínculo, que perdurará pelo resto de nossas vidas. Por outro lado, a afinidade não é determinada e pode ser escolhida. Essa diferença é um dos marcos da pós-modernidade.

Quando se trata de relacionamentos, essa afinidade é voluntária, não compulsória. Isso significa que temos a liberdade de escolher com quem nos relacionamos. Essa mesma liberdade é que nos traz a possibilidade de termos múltiplos caminhos amorosos a seguir nessa vida, como parte de nosso próprio livre-arbítrio. O problema é que a pós-modernidade supervaloriza demais essa liberdade e nos ensina, de maneira aterrorizadora, que ela perdura como norte até mesmo dentro de um relacionamento amoroso de longo prazo.

Em outras palavras, a liberdade é um imperativo da vida humana. Disso todos sabemos. O que há de errado é que a pós-modernidade a toma como principal patrimônio da vida, esquecendo-se da segurança de um relacionamento amoroso de vínculo sem prazo definido. E isso gera a angústia, o medo e a dificuldade de se entrar numa relação.

O medo do compromisso é o mal do século XXI. E será difícil desatar esse nó sem refletirmos sobre suas causas e nos esforçarmos em conjunto para buscarmos uma solução.

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“Em tempos virtuais, é fácil se desconectar.”

As redes sociais são chamativas e sedutoras porque oferecem o tipo de vínculo próprio da sociedade líquida: sem compromisso e com a facilidade de troca.

Se não estamos mais satisfeitos com um vínculo, é fácil de se desfazer dele: é só excluir e bloquear. Bauman, em uma entrevista recente, nos fala disso com bastante propriedade. Deixarei o link aqui para todos poderem assistir.

É mais fácil se desfazer de um vínculo virtual do que de um real, porque o contato visual, cara-a-cara, implica demonstrar emoções, argumentar, problematizar condutas, e se abrir para o outro. Por isso o indivíduo pós-moderno parece ter uma preferência pelo vínculo virtual.

“Quem tem um porquê para viver pode suportar qualquer como.” – Nietzsche

Em um mundo onde os porquês mudam a cada instante, onde valores se esvaziam em seus significados rapidamente e são trocados por outros, novos em folha, como artigos de consumo, é fácil perceber que os relacionamentos acabam sendo atingidos por essa mudança.

A cada dia pensamos diferentes, adquirimos novos valores, novos horizontes, novas perspectivas. E fica fácil de perceber nossa angústia. Não temos mais tempo de nos adaptarmos as novas mudanças. Quando achamos que estamos nos ajustando, novas coisas surgem. E essa aparição incessante de novos valores, crenças, hábitos, objetos etc acaba nos tornando equações matemáticas, e não valores em si. Não somos um resultado, mas sim uma fórmula que se adapta a qualquer coisa e a qualquer mudança.

Quando essa mudança constante se estende aos relacionamentos, fica fácil perceber nossa dificuldade em estabelecer vínculos duradouros. Ora, se na nossa vida temos que sempre mudar, trocar e nos adaptar a novas coisas, então com o relacionamento deve ser a mesma coisa. Quando um vínculo amoroso de longo prazo começa a ter conflitos que lhe são próprios e naturais, é burrice permanecer no mesmo, pois novos e mais sedutores vínculos vazios estão por ai, na imensidão do nosso mundo, em aproximadamente 7 bilhões de pessoas, ou “oportunidades”.

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“A modernidade tinha confiança no futuro. A pós-modernidade tem a dúvida e a incerteza.” – Lipovetsky

Antes éramos determinados pelo meio social em que vivíamos com mais fervor. Os valores eram precisos, sólidos, tínhamos escolhas certas e um caminho seguro a seguir. Um emprego estável, uma vida determinada. Uma casa, um(a) esposo(a), dois filhos, um carro e um cachorro. Hoje, por sua vez, os valores são incertos, líquidos, não temos escolhas certas, e os caminhos a seguir são muitos e múltiplos. Trocamos de emprego como de roupa. A vida não é determinada por uma única escolha. Mudamos de casa, separamos e ficamos, filhos são para um futuro, os carros são trocados a cada ano e talvez um pet dê muito trabalho.

Nesse sentido, quando a incerteza paira, o importante então não é o futuro, pois o mesmo é extremamente incerto, mas sim o presente. Daí vemos o “ficar”, o estar, o prazer momentâneo. As relações duradouras perdem o seu sentido e beleza. Um relacionamento de longo prazo é uma prisão, uma penalidade, um encarceramento.

As relações superficiais, ou líquidas, acabam nos seduzindo com mais facilidade, pois podemos abrir mão delas quando houver qualquer dificuldade, procurando outras que nos satisfaçam naquele momento. O compromisso vira algo retrógrado, do passado. Por outro lado, os relacionamentos duradouros exigem esforço, compreensão mútua, capacidade de nos adaptarmos e suportarmos momentos difíceis, às vezes até tristes, pois seres humanos são diferentes por natureza.

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“Para ser feliz, há dois valores essenciais que são absolutamente indispensáveis […] um é segurança e o outro é liberdade. Você não consegue ser feliz e ter uma vida digna na ausência de um deles. Segurança sem liberdade é escravidão. Liberdade sem segurança é um completo caos. Você precisa dos dois. […] Cada vez que você tem mais segurança, você entrega um pouco da sua liberdade. Cada vez que você tem mais liberdade, você entrega parte da segurança. Então, você ganha algo e você perde algo.” – Zygmunt Bauman.

Nessa percepção apurada de Bauman vemos o cerne central da dificuldade de se ter relacionamentos duradouros num mundo líquido.

Em uma sociedade de consumo, onde somos moedas de troca e mercadorias, a liberdade se torna um imperativo quase que absoluto. Mas ela se choca com outro valor que seria a segurança no amor, pois, para se obter essa segurança, devemos embarcar num relacionamento e isso, invariavelmente, implica abrir mão de uma parcela de sua liberdade.

Em outras palavras, para se ter a segurança que um relacionamento nos proporciona, devemos nos comprometer, enfrentar problemas e estabelecer laços profundos. Entretanto, em uma modernidade líquida onde os laços duradouros são uma carga enfadonha para carregar, o equilíbrio entre os valores da liberdade e da segurança se perde, tanto lugar ao caos, à angústia e a um sentimento profundo de vazio existencial.

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A solução velada. O desafio do amor.

Buscar um equilíbrio entre a segurança do amor e o imperativo da liberdade na sociedade pós-moderna é um desafio a ser vencido.

A solução, sutil, é enfrentar primeiro o nosso medo do abandono, medo dos problemas que serão enfrentados numa relação de longo prazo. Temos que mergulhar dentro de nós mesmos e enxergarmos ali um ser humano capaz de superar dificuldades, de pular obstáculos e de nos deliciarmos em viver um amor profundo, agregador e que nos trará o sentido mais intrínseco da vida: a vida a dois. Mas para isso devemos nos jogar no abismo da incerteza, no abismo do medo do futuro e vermos que o relacionamento é uma oportunidade de sermos amados, e não uma bomba-relógio prestes a explodir a qualquer momento. O vínculo de longo prazo trará consigo problemas, obstáculos, desafios, medos, angústias e talvez, e às vezes, solidão, carência e abandono. Entretanto, enfrentar esses desafios é melhor do que fugir deles com vínculos vazios e sem propósito, apenas buscando o prazer momentâneo. Obviamente que se a sua escolha é o prazer momentâneo e não ter vínculos, não há problema algum, porém deverá enfrentar, nesse caminho a trilhar, a solidão que perdurará e sempre estará presente.

Não podemos nos enxergar como apenas seres adaptáveis e objetos de consumo. Devemos sim começar a olhar uns aos outros como partes de nós mesmos, como companheiros e amantes, em vez de oportunidades de prazer momentâneo.

Nascemos sozinhos e morreremos sozinhos. O que faremos nesse tempo de intervalo cabe a nós construir e decidir.

“Somos livres para escolher, mas prisioneiros das consequências”. – Aldo Novak

Um grande abraço, amigos de boteco! Nos vemos na próxima.

Fontes de pesquisa e curiosidade:

https://colunastortas.wordpress.com/2014/05/15/o-que-e-pos-modernidade-resumo-de-uma-falencia-da-modernidade/

http://www.angelfire.com/sk/holgonsi/consumismo2.html

https://pt.wikipedia.org/wiki/P%C3%B3s-modernidade

https://colunastortas.wordpress.com/2014/04/11/sociedade-liquida-bauman-explica/

http://lounge.obviousmag.org/de_dentro_da_cartola/2013/11/zygmunt-bauman-vivemos-tempos-liquidos-nada-e-para-durar.html

https://www.youtube.com/watch?v=6vaBUqnhrm8

https://www.youtube.com/watch?v=cqYpFwki1CA

https://www.youtube.com/watch?v=58MMs5j3TjA

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